23/09 - Prólogo

E lá vou eu novamente. Para mais uma viagem que sempre fantasio que será a última. Seja porque finalmente o universo me presenteará com meu tão almejado câncer. Seja porque a merda do avião finalmente aceitará desaparecer em alguma profundeza do Pacífico. Seja porque o mandato do Trump já está pela metade, o cara não vai topar nunca largar do osso e vai acabar começando uma guerra só pra permanecer no poder. Se for esperto, meramente com a Venezuela. Mas, como não é, possivelmente com a Russia, e, com sorte, com o envolvimento de armas nucleares. O inverno atômico a serviço da abreviação de minha lastimável e injustificável existência. Ou seja porque estas duas massas disformes de dor e instabilidade que um dia já foram meus joelhos finalmente vão entrar em estado de degeneração terminal, e, no ano que vem, tudo o que conseguirei correr será umas paramaratonas, sentado em uma cadeira de rodas. Mas não, vaso ruim não quebra, e provavelmente daqui a um ano estarei aqui escrevendo um novo blog, um ano mais velho, uns 3 mmHg mais penianamente flácido, um tanto mais desgostoso com a vida, e tendo sofrido mais umas duas dúzias de cancelamentos.

Mas tratemos da viagem deste ano. Cada dia com sua agonia, já diria o Jair, confinado em sua prisão domiciliar ao lado da Michelle, tropeçando nas bíblias espalhadas pelo chão, e com a dor da topada no dedão lhe desencadeando crises de soluço. Jair que também é o tema do blog deste ano. Porque ainda acho que o bicho, se não terminar sendo anistiado e indenizado pelo Estado por perseguição política, vai acabar conseguindo fugir! Então já nos antecipemos e briquemos de "Onde está o capitão?"... Empresto a ele minha pançuda figura e já vou na frente explorar lugares remotos e recônditos na Europa onde ele poderá se esconder, caso o Donald não lhe dê asilo, porque ele afinal não se mostrou suficientemente ariano para emigrar para aquela América grande novamente.


Como não sou tão bom de psicopatia quanto sou de incorreção política (por mais que o talibã do bem cada vez mais insista em equivaler ambas as coisas...), carrego a tiracolo nesta viagem a Hannibal, pra, sei lá, ficar enchendo o saco pedindo pra ir ao banheiro, insistindo pra pegarmos o metrô em vez de andarmos meros 20 km pra economizar no bilhete de metrô, reclamando que sou muito mesquinho por ter reservado hotel com banheiro coletivo no corredor, e se queixando de dor nas costas porque resolveu levar um monte de xampus e cremes hidratantes e anti-rugas e batons e perfumes na mochila.

Como lugares a visitar são que nem mulher, não se deve ficar repetindo muito, desta vez vou parar numas pirambeiras ainda mais sinistras do que as anteriores, nas quais a única coisa que se tem para fazer é torcer pro dia passar depressa e poder depois dizer pro amiguinho, que na verdade está cagando, "eu estive lá e você não".... Mas algumas cidades, que nem algumas mulheres, são incontornáveis, então preparem-se para ler sobre meu retorno a elas. Assim como com as mulheres, com menos vigor e entusiasmo do que já tive um dia.

Viajo agora munido de meus cartões de crédito superblack unlimited fodão total, que o banco tenta te empurrar insistentemente, com o argumento de que com eles você vai poder entrar em centenas de lounges de aeroportos ao redor do mundo. Só pra, ao chegar neles, nem ter onde sentar porque estão entupidos por todos os ex-frequentadores dos encantos da Andressa Urach, inclusive aqueles de 4 patas, somados a todos os laranjas donos de imóveis do Jair. Comendo um sanduichinho de metro meio murcho e vagabundo, e se achando o máximo porque entrou na sala vip.



É isso aí, garotada, vamos nessa, que no avião vai estar passando um monte de filmes que já paguei para assistir no cinema antes, e nem vai dar pra escutar direito no fone de ouvido, porque vai ter alguma criancinha abominável chorando desesperadamente ali do lado a viagem inteira. Pra não falar do arroz cheio de cenoura na refeição de bordo.

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